Tudo estava funcionando
O problema é que funcionar não é a mesma coisa que viver.
É muito curioso quando o modo de economia de energia do corpo é ligado. Não tem similaridade com o celular, ou qualquer outro gadget, porque não é sobre dar um simples toque na tela. São milhões de sinapses para que isso ocorra e a gente entenda. Talvez esteja exagerando em falar milhões, talvez. Mas falei com bastante certeza, então espero que acreditem em mim.
O curioso é que, quando isso acontece, quase nunca percebemos na hora. Ninguém acorda numa terça e pensa: “pronto, entrei em modo economia de energia”, a gente só começa a notar depois.
Quando percebe que não quer mais discutir assuntos que antes renderiam horas de debate, ou quando uma sexta-feira à noite em casa parece mais interessante do que um restaurante disputado, e também, quando o corpo começa a selecionar melhor para onde vai cada grama de energia disponível. O que é ótimo, veja bem, talvez o modo economia de energia devesse ser o que fazemos para manter a sanidade do corpo e da mente.
Durante muito tempo eu achei que maturidade era expansão: mais amigos, projetos, viagens, metas e experiências. Hoje vejo a maturidade ter mais relação com edição. Com descobrir o que não merece ocupar espaço.
Nas últimas semanas pensei muito sobre previsibilidade, essa palavra tão desejada no trabalho, ainda mais quando se está em vendas, e o quanto ela é uma ilusão confortável quando aplicada à vida. A gente prevê pipeline, receita ponderada, cash-in em 30, 60, 90 dias, e faz sentido, organiza, dá chão. Mas fora das planilhas, a vida não pondera risco, ela simplesmente acontece.
Nenhum dos momentos mais importantes da minha vida apareceu numa previsão. As melhores oportunidades não estavam no orçamento, as pessoas mais importantes não vieram de um planejamento estratégico, os maiores aprendizados chegaram sem aviso prévio e quase sempre em embalagens pouco atraentes (e muito dolorosas, diga-se de passagem). Talvez a maturidade seja aceitar que controle bom é o que não nos engessa. Ou talvez seja entender que previsibilidade é uma ferramenta de gestão, não uma filosofia de vida.
Tenho pensado também sobre corpo, não o corpo estético, esse assunto apesar de valiosíssimo porque não considero futilidade, não é o que quero falar aqui. O que tem me feito pensar é o corpo funcional. No corpo que avisa antes da cabeça, que entende algumas coisas meses antes de nós.
Existe uma arrogância silenciosa na forma como fomos ensinados a lidar com o próprio organismo. Como se ele fosse um funcionário obrigado a cumprir metas, sem falar, apenas produzir, entregar e aguentar, independentemente das circunstâncias.
Mas vamos lá, o corpo não assina contrato, ele até negocia, mas quando não é ouvido, ele protesta. Às vezes através de uma dor, outras através de um cansaço que não passa, até mesmo através daquela sensação estranha de que tudo está tecnicamente bem, mas alguma coisa não encaixa.
A endometriose me ensinou muito mais sobre limites do que sobre medicina, me ensinou que dor não precisa atingir um nível cinematográfico para ser respeitada (apesar de ter atingido algumas, muitas, vezes). Me ensinou que uma bolsa quente resolve mais problemas do que determinados discursos motivacionais. E claro, o ensinamento que eu sempre fico feliz de ter: parar não é desistir. Existe uma diferença enorme entre disciplina e violência, porque nem toda insistência é força, às vezes é só teimosia bem embalada.
E aí tem a cidade, São Paulo continua me intrigando. Outro dia me peguei pensando em como todos parecem andar alguns centímetros acima da própria capacidade emocional. Como se estivéssemos todos operando com a bateria em 12%. Buzina vira discussão, uma demora vira ofensa, comentário vira briga. Passei por uma situação ridiculamente simples no trânsito que terminou com duas pessoas completamente dominadas pelo medo e pela raiva. Nada efetivamente aconteceu, mas o corpo delas já estava preparado para uma guerra, e eu estava dentro do táxi, no meio disso.
Talvez essa seja uma das características do nosso tempo. Estamos cercados por pessoas exaustas tentando parecer funcionais, e funcionar, não é a mesma coisa que viver. Tenho repetido uma coisa para mim mesma no trabalho: receita sem clareza cansa mais do que desafio, existe algo perverso em bater uma meta sem entender por que ela importa ou em crescer sem saber se o crescimento é sustentável.
Talvez por isso eu tenha cada vez menos paciência para barulho e cada vez mais respeito por processos silenciosos. Existe um tipo de competência que não faz questão de ser vista, ela simplesmente funciona. O mundo corporativo criou uma certa obsessão por parecer: produtivo, ocupado e relevante. Enquanto as pessoas que mais admiro normalmente estão ocupadas demais construindo para se preocupar com a aparência da construção.
Tem sido um período curioso de liderança, muitas perguntas, menos convicções instantâneas, mais observação, aprender a dizer “ainda não sei” sem sentir que isso diminui autoridade. Pelo contrário, sustentar o não saber talvez seja um dos gestos mais adultos disponíveis. Porque existe uma enorme diferença entre confiança e certeza. Confiança é seguir andando mesmo sem enxergar tudo, certeza instantânea costuma ser só excesso de autoestima disfarçado de sabedoria.
E no meio disso tudo continuam existindo as pequenas coisas: um livro que muda o rumo de uma semana, uma ida ao salão com as amigas que melhora um dia inteiro, uma conversa inesperada, uma caminhada, um moletom bonito demais para ser apenas um moletom.
Continua existindo também a vontade de voltar para algumas versões de mim que gosto bastante: a mulher que nada, que corre, que começa a pedalar antes do sol nascer e acha isso uma ideia razoável.
Ainda quero que 2026 tenha duas provas de triathlon e uma meia maratona, não porque preciso provar alguma coisa, justamente porque não preciso. Acho que uma das melhores partes de envelhecer é perceber que vários objetivos deixam de ser demonstrações e passam a ser encontros. Com quem a gente foi, com quem a gente é e com quem ainda deseja se tornar.
Também tenho pensado numa coisa que me incomoda. Algumas das melhores coisas da vida custam muito pouco e algumas das mais caras entregam quase nada: livro usado, uma mesa com amigos, a tarde sem compromisso, uma pizza boa e a gargalhada que dói a barriga.
Enquanto isso, existe um mercado inteiro tentando nos convencer de que felicidade é uma compra parcelada. Acho que o maior aprendizado recente foi esse, aquela frase que todo mundo já viu em vídeos: a segunda metade da vida não é sobre acumular é sobre curar a primeira.
Curar pressas, expectativas herdadas, culpas silenciosas, curar a ideia de que descanso é prêmio e a fantasia de que pessoas fortes não sentem medo. Elas sentem, medo, dúvida, dor, a diferença é que seguem mesmo assim.
Se tem algo que eu gostaria de deixar registrado aqui, é isso: não confundam funcionamento com plenitude, agenda cheia com sentido, produtividade com presença, previsibilidade com segurança.
Domingo, para mim, continua não sendo sobre fechar uma semana e sim lembrar porque vou abrir a próxima.
Sempre com carinho,
Ágatta


